terça-feira, 26 de março de 2013

Para perder medo de voar, fóbicos enfrentam ponte aérea e sessões de psicologia

Para perder o medo de voar, fóbicos visitam avião em hangar do aeroporto de Congonhas.

A vida da funcionária pública Juliana Rodrigues mudou drasticamente em 31 de outubro de 1996.

Neste dia, 24 segundos após decolar do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, a aeronave que realizava o voo TAM 402 teve problemas em um reversor e caiu sobre uma área residencial da cidade, matando 90 passageiros, seis tripulantes e três pessoas em terra.

Juliana não perdeu nenhum parente ou amigo na tragédia, mas o acidente a afetou profundamente: “li muito sobre os detalhes do desastre e a história das vítimas, e aquilo me deixou muito assustada. Era como se tivesse morrido alguém da minha família”, conta ela.

Desde então, Juliana passou a encarar o transporte aéreo como uma ameaça a sua própria vida. “Comecei a sentir pânico só de pensar em estar presente em algum voo. Preferia percorrer longas viagens na estrada a entrar em um avião novamente”.

Em 2004, ela teve que fazer uma jornada à cidade de Maceió. “Não tive coragem de tomar um avião. Acabei comprando uma passagem de ônibus”, relata. O resultado: mais de 44 horas de viagem entre São Paulo e a capital alagoana. “Foi horrível, mas, para mim, naquele momento, era a única opção disponível”.

De acordo com pesquisas do Ibope, Juliana faz parte de 40% da população adulta brasileira que tem medo de viajar de avião. Os motivos para tal fobia são variados: vão desde traumas causados por acidentes reais (como no caso do voo TAM 402) até problemas de ansiedade crônicos que afetam os seres humanos e, por consequência, mudam sua percepção sobre os riscos apresentados pelo transporte aéreo.

Para dar assistência a esse público, a psicóloga Elvira Gross criou em São Paulo, há cinco anos, um curso que junta pessoas com fobia de avião e, em sessões de terapia coletiva, busca desconstruir seu medo de voar. “Pode não parecer, mas ter medo de avião prejudica profundamente a vida de uma pessoa”, afirma ela. “Vemos gente que já perdeu trabalho e até casamento por não ter coragem de subir em uma aeronave”.

Os cursos de Elvira chegam a durar dois meses, custam R$ 3.800 por cabeça e recebem pessoas de todo o Brasil. “Trabalho com executivos de multinacionais, estudantes e até donas de casa que têm receio de perder os maridos por não poder acompanhá-los em viagens”.

Há, porém, além da fobia pelo avião, um ponto de convergência entre esse público: “são quase todas pessoas extremamente controladoras, que se sentem desconfortáveis por não ter o domínio sobre as aeronaves e o piloto que as conduz”, conta a psicóloga. “Essa característica, aliada à percepção de que o avião pode cair a qualquer momento, gera uma ansiedade extremamente prejudicial”.

Desconstruindo o medo

O curso de Elvira trabalha em etapas: nas primeiras sessões, a psicóloga ensina técnicas para controlar a ansiedade, com domínio de respiração, meditação e a chamada “reestruturação do pensamento”, que busca fazer, entre outras coisas, que o avião deixe de ser sinônimo de perigo.

Depois, o grupo vai até o aeroporto de Congonhas e, durante mais de três horas, bombardeia com perguntas um piloto da companhia aérea Gol, que se prontifica em abrandar todos os receios relacionados ao processo do voo. As questões levantadas pelos clientes do curso são inúmeras: “turbulência derruba avião?”, “por que as aeronaves arremetem?”, “avião consegue voar com apenas uma turbina?”, “como é a formação de um piloto?”, “os prédios nos arredores de Congonhas atrapalham o pouso?”, “faz diferença voar à noite ou de dia?”, “existe vida após a morte?” (essa, em tom de brincadeira).

Todas as respostas do comandante tentam derrubar o medo implícito nas perguntas. A turbulência e a arremetida, os dois fatores que mais afligem os fóbicos, são tratadas como momentos perfeitamente contornáveis durante um voo (e, no caso da turbulência, sempre previsível). “As pessoas têm que entender que o avião para um piloto é como um carro para um motorista. Nós temos total preparação para assumir o veículo”, diz o comandante Vitorino, que conduziu a palestra que foi acompanhada pelo UOL. “A única diferença é que a chance de haver um acidente com o avião é bem menor”.

Após a conversa, o grupo vai até um dos hangares de Congonhas e, guiados por técnicos da Gol, passeiam pela estrutura de um Boeing 737-800 da empresa. Os trens de pouso, as asas, as turbinas e até a cabine do piloto são examinados atentamente pelos presentes. Alguns deles, porém, já se mostram ansiosos pelo simples fato de chegar perto da aeronave.

Histórias de vida

O UOL acompanhou a visita a Congonhas ao lado de mais de 20 participantes do curso da psicóloga Elvira Gross. A grande maioria deles concordou em dar declarações à reportagem, detalhando as razões e consequências de suas fobias, mas não quiseram ter seu nome exposto no texto. E as histórias relatadas são impressionantes.

Um dos participantes, um alto executivo de uma empresa de São Paulo, começou a ter medo de avião após assistir ao programa “Desastres Aéreos”, do canal de TV da National Geographic. “Fiquei chocado ao saber dos detalhes daqueles acidentes e nunca mais consegui entrar em um avião tranquilamente”.

Ele conta que, durante anos, teve que fazer viagens interestaduais pela sua empresa, mas, sempre na hora H, não conseguia ir até o aeroporto. “Meu chefe me dava os bilhetes aéreos para eu ir a esses compromissos. Sem contar para ele, eu descartava as passagens, ia até o terminal rodoviário e tomava um ônibus. Cheguei a fazer viagens noturnas de quase 15 horas simplesmente porque não tinha coragem de entrar em um avião”.

Outro participante desenvolveu sua fobia após enfrentar uma grande turbulência durante um voo entre Lisboa e São Paulo. “Estávamos passando bem na área em que o avião da Air France havia caído [acidente do voo 447, em 2009] e eu achei que ia acontecer a mesma coisa com a gente”, relata ele. “Depois disso, fiquei com tanto medo de voar que estive a ponto de pedir demissão, pois sempre tinha que fazer viagens aéreas pelo meu trabalho. Tive sorte pelo meu chefe ser compreensivo e deixar que eu começasse a fazer algumas jornadas de ônibus”.

Há também aquelas pessoas que, apesar do medo, não deixaram de voar, mas sempre com a ajuda de medicamentos. “Gosto de muito de viajar, mas tenho que tomar calmantes antes de entrar no avião”, conta uma estudante carioca de 20 anos que participou das sessões contra a fobia de avião. “Uma vez, tomei tantos remédios para conter meu nervosismo que só consegui sair do avião em cadeira de rodas”.

Hora da verdade

Após passar pelas sessões de psicologia e pelo encontro com os profissionais da Gol, o grupo da doutora Elvira Gross enfrenta o teste de fogo: fazer uma viagem de avião entre São Paulo e Rio de Janeiro. Antes, eles visitam um simulador usado para o treinamento de pilotos e que recria perfeitamente a experiência de um voo, com direito a turbulências e sensações de instabilidade que às vezes acompanham a decolagem das aeronaves.

A psicóloga Elvira Gross ministra um curso que ajuda pessoas a combater o medo de voar.

No dia do voo real, o grupo se reúne no saguão do aeroporto de Congonhas para enfrentar o momento que tanto os atemorizou. Alguns estão acompanhados por esposas e namoradas, e todos, surpreendentemente, aparentam tranquilidade. Ciente da particularidade da turma, a tripulação do voo 1016, da Gol, a recebe com pompa: o comandante aperta a mão de cada um na porta da aeronave e o chefe de cabine se apressa em minimizar qualquer sinal de preocupação: “estamos no meio de transporte mais seguro do mundo”.

Da decolagem em Congonhas ao pouso no Santos Dumont, o piloto, através do sistema de comunicação da cabine, também assume um papel de psicólogo: “agora, o avião vai tremer um pouquinho, mas logo vai passar”, diz ele, antes de uma turbulência. Ou: “o ruído que vocês estão ouvindo neste instante é normal do avião. Não se preocupem”.

Nos 50 minutos de voo, ninguém perde a calma. Alguns membros do grupo ficam mais calados, e outros contam piadas para ajudar a passar o tempo. Na hora do pouso, o comandante exalta o grupo “por enfrentar e superar seu medo de avião”. Toda a aeronave aplaude os alunos da doutora Elvira.

“É uma sensação libertadora”, conta uma psicóloga paulista que, por causa de uma fobia de avião que foi se desenvolvendo aos poucos, não entrava em uma aeronave há anos. “Consegui ficar calma com base nas técnicas de controle de ansiedade que aprendemos e superei este voo até o Rio sem problemas”. O próximo passo? “Já tenho uma viagem marcada para Roma no mês de abril. Agora é correr atrás do tempo perdido”.

Para mais informações sobre o curso da psicóloga Elvira Gross, acesse: www.medodeaviao.com.br

Outro curso que realiza o mesmo trabalho é o "Voe Livre do Medo", localizado no Rio de Janeiro. Mais informações: www.voelivredomedo.com.br.

Fonte: Uol

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